O Duelo / Bernardo Santareno

“O Duelo” , de Bernardo Santareno, é uma peça de teatro que se destaca pelo seu realismo e pela forma como aborda as tensões sociais e morais do Portugal rural da época, especificamente na lezíria ribatejana.

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Descrição

“O Duelo”, de Bernardo Santareno, é uma peça de teatro que se destaca pelo seu realismo e pela forma como aborda as tensões sociais e morais do Portugal rural da época, especificamente na lezíria ribatejana. É considerada uma das obras mais poderosas e originais do autor, transitando entre o realismo clássico e um estilo mais abstrato.
A peça centra-se nas relações opressivas e conflituosas de uma comunidade rural, explorando a luta de classes e a moralidade conservadora da sociedade portuguesa sob o Estado Novo.
  • O Conflito Central: O “duelo” do título não é apenas um confronto físico, que ocorre na peça quando dois homens resolvem as suas diferenças num embate onde a morte é uma possibilidade. É, sobretudo, um duelo de palavras, de ideologias e de visões do mundo. A obra reflete sobre a barbárie e a intolerância presentes na sociedade.
  • Personagens e Temas: A peça aborda a opressão dos “senhores” sobre os “escravos” (trabalhadores rurais), evidenciando a profunda injustiça social: “Eles são os senhores e nós os escravos, eles têm tudo e nós nada”. Existe um confronto de valores, como o que se desenrola entre duas personagens femininas: Mária Constantinov, ligada a um modelo de família tradicional, e Nadesjda, que representa uma perspetiva mais livre.
  • A Ironia e a Crítica Social: Santareno utiliza a ironia como uma forma de crítica histórica, social e cultural. A escrita é de denúncia, focando as incongruências e limitações com que o homem português do século XX se deparava.
É uma obra que oferece uma visão profunda e crua da sociedade, desafiando o leitor a refletir sobre as injustiças e as complexas relações humanas.

«Ora nesta estrutura irrealista por filosofia e por concessão há a interferência de outras estruturas, que resumia rei numa só: a do diálogo, da fala viva. E aí é que B. S. revela sempre as suas melhores qualidades. Se noutras peças consegue desentranhar as possibilidades rítmicas e imaginíficas superiores da fala marítima e aldeã, nesta percorreremos as zonas do calão de gaiatos e adolescentes viciados da alta burguesia, as linguagens de camarim, sala e restaurante – e, enraizando de facto na fala viva, todas essas atmosferas dão na peça a impressão de realidades estilizadas no sentido de uma certa graça imanente a cada uma, no sentido de urna certa plenitude estética a que tendem, dentro dos respectivos limites. Assim como de um. conjunto de vibrações acústicas determinadas o músico obtém algo dotado de suficiente coerência e autonomia estética, um dramaturgo, pelo diálogo, pode obter estruturas dinâmicas, séries e sobreposições de entonações, de atitudes afectivas em que por fim se reconhece, ou se vai passo a passo reconhecendo, ou um tom ou desenho significativo. E é o que acontece com esta peça, apesar de certo convencionalismo geral das situações, dos tipos e da filosofia. Tirante um ou outro comparsa caricatural, o autor repartiu-se afectivamente pelas personagens, e, com humor ou sarcasmo, estilhaçou toda a compunção banal para melhor aderir, sobretudo num, ou noutro irreprimível tremor de frase. E eis que, pela simples reelaboração da faia, daquilo em que todos somos crias dores anónimos e quotidianos (a linguagem não passa, toda ela, de metáfora, de poesia sedimentar e inconsciente). E. S. vai até onde a sua simbologia religiosa não chega.»

Óscar Lopes, em «Comércio do Porto»

Ficha Técnica
Título: O Duelo
Autor: Bernardo Santareno
Editor: Ática
Ano de Edição: 1961
Páginas: 205
Idioma: Português
Edição:
Estado: Capas com algumas marcas de manuseamento e algumas manchas; miolo limpo e bem conservado; rubrica de posse

Detalhes