O Outro Mundo / Cyrano de Bergerac

Bela edição, repleta de gravuras em hors texte.

15.00 

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Descrição

Narrado em primeira pessoa, através de um personagem chamado Cyrano, o livro é uma verdadeira coleção de pensamentos científicos, sociais, filosóficos, jurídicos, comportamentais e fantasiosos do século XVII, costurados à viagem que esse indivíduo faz até à Lua, primeiro amarrando ao corpo frascos com gotas de orvalho (sim, você leu corretamente) e depois através de uma máquina similar a um foguete-pássaro que ele mesmo constrói, após sua tentativa inicial dar errado e ele cair na Nova França (hoje Canadá) não sem antes bater um papinho filosófico sobre o Heliocentrismo , os movimentos da Terra, a pluralidade dos mundos e a infinitude do Universo com Charles Jacques Huault de Montmagny.
Toda a primeira parte do livro traz absurdos e conceitos científicos que hoje são amplamente conhecidos mas que, na época, estavam em seus primeiros estágios de discussão, divulgação e ensino massivo. O lado puramente ficcional é bastante engraçado porque nossa leitura sempre terá como base a tecnologia contemporânea, de modo que um corpo besuntado de banha e frascos de orvalho que elevam um homem ao ar, fazendo-o viajar da França ao Canadá; ou uma máquina de madeira impulsionada por fogos de artifício e pelo vento ser capaz de levar um indivíduo à Lua são coisas que inevitavelmente nos fazem rir. É muito interessante ver como o pensamento do autor funcionava ao criar esses elementos “fantasticamente tecnológicos“, intercalando cenas de ação com outras de observações críticas ou reflexivas a respeito dos mais diferentes assuntos.
O leitor não deixa de sentir algo quando o personagem enfim aterrissa no nosso satélite, e uma das primeiras conclusões a que Cyrano chega é que do ponto de vista lunar, a Terra era a Lua e aquele era o planeta — esse conceito irá se estender até o final do livro, sendo um dos motivos de julgamento e discussões amplas que o personagem terá em sua estadia. Eu fiquei bem impressionado com a quantidade de “camadas de exploração” que Bergerac adiciona aqui. Primeiro, ele coloca seu protagonista no ‘Paraíso da Lua’, onde conhece Elias, Adão, Enoque e Acabe. As conversas aí são engraçadas porque Cyrano não é religioso e isso o faz bater de frente com algumas ideias celestiais, acabando por ser expulso, mas conseguindo roubar algumas maçãs da Árvore da Ciência.
A narrativa começa realmente a engatar após essa expulsão. Cyrano então conhece os Selenitas — habitantes lunares que já eram utilizados na literatura desde História Verdadeira (Luciano de Samósata, século II) — e passa a ter um tratamento progressivamente hostil, em dado momento sendo encarcerado e exibido como “macaco divertido” para os nativos. Em termos de história, contudo, há bem pouca coisa a se observar aqui. Pela maneira como começou a explorar a Lua logo nas primeiras páginas, eu acreditei que a linha de abordagem do autor seria mais próxima de uma exploração territorial, um caminho mais próximo da geografia que da filosofia, astronomia, física e outras ciências (o que Jules Verne não faz com um ponto de vista, não é mesmo?). Mas o autor cria algo bem diferente ao dar andamento à sua saga.