O Corredor / Jean Reverzy

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Descrição

De início, no vestíbulo bastante escuro distingui, à esquerda, para lá duma porta de vidrinhos, toalhas brancas estendidas e talheres de metal; à direita destacavam-se um cabide, algumas prateleiras carregadas de conchinhas e bibelôs e muitos outros móveis cuja utilidade me era desconhecida. Então, chamei: mas ninguém me respondeu e hesitei aventurar-me mais longe, numa semiobscuridade riscada de raios que se entrecruzavam diante de mim… É mais audacioso ordenar o mundo por palavras do que por olhares. Por isso, sem repetir o meu apelo, perscrutei o fundo do vestíbulo que prolongava o voo duma escadaria, onde julguei distinguir uma forma clara e palpitante cujos contornos pouco a pouco se foram precisando: eram as pernas duma mulher calçando pantufas a rebentar nas costuras, que descia silenciosamente os degraus. Avancei então mais um passo e distingui a bainha de um vestido negro e dum avental branco e amarrotado, depois as mãos e finalmente o busto e o rosto de uma criada que pousou suavemente sobre o parquete e veio ao meu encontro. Sorri-lhe e, erguendo o braço para lhe dar a entender que era inútil aproximar-se mais, pedi um quarto com vista para o mar. Ela sorriu também mas não pareceu compreender-me e, sempre caminhando para mim, levou a mão ao rosto onde os dedos pareceram querer modelar os lábios a fim de que o seu sorriso correspondesse ao meu.

Nota biográfica: Jean Reverzy nasceu em Lião, em 1914, e morreu na mesma cidade, em Julho de 1959. Formou-se em medicina. Em Agosto de 1940 foi demitido do seu internato pela sua atitude não conformista em face dos ocupantes e colaboracionistas. Entrou no movimento da Resistência, esteve preso e acabou a Guerra nos FTP. A partir de 1945 dedicou-se à medicina num bairro operário. A sua atividade literária iniciou-se em 1954, com o romance Le Passage, que obteve o prémio Théophraste-Renaudot. Depois escreveu Place des Angoisses e O Corredor.
Renovador da técnica do romance moderno, que muitos comparam a Alain Robbe-Grillet, embora haja notáveis diferenças entre ambos, dele afirmou André Wurmser, em Les Lettres Françaises: «Completamente ensimesmado na solidão e no silêncio do homem é, com efeito, um sonho; a realidade acarreta o convívio, a palavra, a simpatia, a antipatia, as relações sociais. Tal é – em meu parecer – a moral a tirar desta espantosa narrativa (O Corredor) que um excelente escritor teve a coragem de realizar».
Referindo-se ao mesmo romance, escreveu Maurice Nadeau, no France-Observateur: «Jean Reverzy iguala-se, de uma assentada, pelas suas intenções e a sua ambição, aos maiores: pensa-se em Joyce, em Kafka, em Beckett».
Eis quem era o grande romancista, infelizmente falecido aos 45 anos.

Detalhes:

Título Original: Le Corridor
Idioma: Português

Tradução: José Manuel Calafate

Autor: Jean Reverzy

Editora: Portugália

Ano: 19--

Descrição Física: 155 [1] p. ; 17 cm

Colecção: O livro de bolso