A Sociedade contra o Estado / Pierre Clastres

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Descrição

A Sociedade contra o Estado reúne vários ensaios de Pierre Clastres sobre a filosofia política das sociedades indígenas sul-americanas. O objetivo do autor, contudo, é aceder, através desta filosofia, aos fundamentos singulares da concepção ocidental de poder. Crítica da Antropologia, vai denunciar a inanidade explicativa dos esquemas evolucionistas e etnocêntricos que, acompanhando o movimento da dominação ocidental, vão erigir a noção de Estado como critério de classificação básico do “desenvolvimento” político. Às sociedades “sem Estado”, Clastres vai opor as sociedades contra o Estado — sociedades que excluem o poder coercitivo, o rejeitam para a esfera da Natureza, impedem astuciosamente o monopólio da violência legítima por indivíduos ou grupos. Trata-se portanto de estabelecer uma determinação positiva na caracterização de algumas sociedades não-ocidentais, isto é, perceber até que ponto elas desenvolveram alternativas à secular equação Es-
tado-poder-violência que subjaz à filosofia política do Ocidente. Na verdade, Clastres vai apontar a formação do Estado como o corte, a diferença radical que introduz as sociedades na História
— e considera a autonomização do Poder como logicamente anterior à formação de classes sociais economicamente fundadas. Apontando a impossibilidade de utilização de conceitos como “estrutura política”, “nível político”, no estudo de sociedades não-ocidentais — onde o autor se insere no movimento geral de questionamento antropológico das categorias ocidentais de explicação do Outro — Clastres, não obstante, vai eleger o Poder como o elemento crítico. A negação do poder é o que define as sociedades que estuda.
O capítulo 2 deste livro é especialmente elucidativo. Aqui, o autor analisa a curiosa “ausência de autoridade” dos chefes tribais da maioria das sociedades sul-americanas. O chefe é figura ambígua: sem poder, é no entanto o lugar possível de incidência deste poder; nesta medida, é excluído do circuito de reciprocidade que define a vida social. Nestas sociedades, o chefe é um marginal — posto que o poder é aquilo que prende a Cultura à Natureza. A análise do papel da tortura nas sociedades primitivas (capítulo 10) vai mostrar o locus verdadeiro do poder: é a sociedade enquanto idéia, acima de quaisquer de suas partes. Todos os homens são iguais, porque todos estão sob a mesma força, que os marca como homens, isto é, membros de um todo. Este livro apresenta ainda ensaios sobre a filosofia da linguagem nas sociedades primitivas, e dois estudos sobre o messianismo tupi-guarani — aonde o profeta e o chefe são comparados, e o profetismo é diagnosticado como índice de ruptura em relação ao optimum sócio-demográfico que sustenta esta filosofia do não-poder. Finalmente, o capítulo 5 — a nosso ver, o ponto alto desta coletânea — traz um ensaio sobre o princípio de reciprocidade na sociedade Aché (Paraguai): ali se encontram valiosas considerações sobre o lugar da individualidade nas sociedades tribais, os modos de pensar o desvio e outros pontos que permitem o exame concreto das teses do autor.

Eduardo Viveiros de Castro