A Ilha dos Amores : Texto dos Lusíadas de Luís de Camões

Com Desenhos de Cícero Dias e um estudo de David Mourão-Ferreira.

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Descrição

Não há erudito que o não recorde, ou que não se escandalize se o não recordam.- a Ilha dos Amores não é apenas «A ilha dos amores». Por outras palavras: na Ilha dos Amores não se assiste somente aos «amores» que entre Nautas e Ninfas ocorrem. Considerado na sua globalidade, convenientemente designado então por maiúsculas, o episódio – o macro-episódio – abrange nada menos que duzentas e vinte e uma estrofes de Os Lusíadas (Canto IX, estâncias 18 a 95; Canto X, estâncias 1 a 143) — o que corresponde, na conta dos que a fizeram, a vinte por cento da totalidade do poema. Em contrapartida, os referidos «amores», esses, no seu ,clímax, pouco mais ocupam que uma vintena de oitavas, ou, quando muito, umas sete para oito dezenas, se acaso contarmos com aquelas que se mostram indispensáveis como preâmbulo, encenação, enquadramento. Mas é tal a densidade temática e simbólica do macro-episódio que o micro-episódio se arrisca frequentemente, ou cada vez mais, em mãos de eruditos, a ver-se relegado para uma equívoca penumbra. Tal como já o foi, em outros tempos, por motivos de pudicícia. Ou será que tais motivos ainda se manifestam, ao nível do inconsciente, no modo como persistentemente se valorizam, no macro-episódio, a aludida riqueza temática, os sugeridos valores simbólicos? Seja como for, o micro-episódio, pela imediata carga erótica que dele se desprende e pelos meios de expressão que mol).liza, igualmente merece as honras de uma leitura; e mais: de uma leitura que simultaneamente atenda à sua literalidade e à sua literariedade. Urge Pois reconsiderar, sublinhando que a Ilha dos Amores, se não é apenas a «ilha dos amores», também é, afinal, a «ilha dos amores).
Nesta perspectiva, a primeira surpresa que o micro-episódio contém refere-se à extrema e clara erotização dos seus componentes, erotização essa que não encontra paralelo na lírica amorosa de Camões. É claro que as circunstâncias em que o corpos lírico veio a ser postumamente publicado autoriza a suposição de que ele tenha sofrido, por imorais razões morais, não poucas lamentáveis amputações; e até é provável que algumas se hajam devido .a ímpias intenções pias de uns quantos amigos seus, já que «os amigos são perigosos» como viria a dizer Ibsen, «não tanto pelo que nos obrigam’ a fazer como pelo que nos impedem de fazer». Ora, perante um morto, tais amigos habitualmente excedem-se em zelo e em impunidade. Mas também não deixa de ser certo que a amputação não terá sido perfeita: em muitas líricas camonianas ainda facilmente se detecta um muito apreciável frémito erótico. Não estou propriamente a pensar nos exemplos mais óbvios, como o da Écloga VII, em que é manifesto, numa situação análoga à de Veloso, o voyeurismo dos dois Faunos («Deixaram-se estar quedos, contemplando/ as feições nunca vistas, de maneira/ que vissem sem ser vistos, espreitando») ou em que os apelos por ambos lançados, em perseguição das Ninfas, se inscrevem, por vezes, numa pauta semelhante à do discurso de Lionardo, correndo «após Efire, exemplo de beleza». ‘Simplesmente, aí, os apelos ficam sem eco, os brados sem braços que lhes respondam. Estou antes a pensar em muitos dos textos mais marcados pelo selo do petrarquismo platonizante, textos esses onde o estrato fónico desmente, a cada passo, o estrato do sentido e onde — pela sensualidade de certas aliterações, pela ondulação e o langor de certos enjambements — o significante parece dizer o contrário do que está dizendo o significado. Do mesmo modo que George Steiner, referindo-se a Flaubert, observou que o erotismo do autor de Madame Bovary era sobretudo uma questão de cadência («Flaubert’s eroticism is a matter of cadence»), também nós poderemos sugerir que o erotismo camoniano, em muitos sonetos e canções —mesmo naqueles assinalados pela sublimação petrarquizante —, é fundamentalmente uma questão de som, de ritmo, de vibração fonética. Impossível não atender à sensualidade das nasais, das dentais e de outros jogos aliterativos em versos como estes: «Mas vai-me Amor matando tanto a tento./ temperando a triaga co veneno,/ que do penar a ordem desordeno,/ porque não mo consente o sofrimento» (soneto XXI, ed. Costa Pimpão). E impossível não referenciar idênticos valores em inúmeros outros passos que, sendo de renúncia, não cessam de cantar, ao nível fonemático, apetite da não-renúncia, o desejo da posse, quando não mesmo a presença próxima de uma atingida plenitude física. (…)

David Mourão-Ferreira

 

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